Valha-me Anhangá!

Você que vê o rio
E quer canalizar
Anhangá vai te afogar!

Você que vê o peixe
E quer logo pescar
Anhangá vai te fisgar!

Você que vê bicho
E só pensa em matar
Anhangá vai te caçar!

Você que vê a mata
E quer derrubar
Anhangá vai te cortar!

Você que vê gente
E já quer explorar
Anhangá vai se vingar!

Você que vê curva
E quer retificar
Anhangá vai te emendar!

Você que vê terra
E já vem asfaltar
Anhangá vai te enterrar!

Você que vê público
E quer privatizar
Anhangá vem te buscar!

Você que está certo
De que nesse mundo
Justiça não há
Quando dormir
E começar a sonhar
Verá o implavável Anhangá.

Ele vem e não há de falhar
Quando ele assobiar
Não adianta correr
Não adianta implorar
Nem tente se esconder
Pois ele há de te achar.

Infinitar

Sempre que nos deparamos com uma concha grande, daquelas espiraladas (tão raras hoje em dia), nosso instinto mais primitivo é lavá-la à orelha.

Isso acontece porque as conchas têm a capacidade de criar infinitos…

Seja qual for o lugar ou situação em que a concha é levada à orelha, ela consegue nos levar para o mar, para o imenso e misterioso mar.

A capacidade de infinitar momentos da vida limitada é a magia inexplicável das conchas espiraladas, apesar de que o fato delas virem do mar não deve ser mero acaso.

A sensação de infinitação provavelmente vem do fato de todos termos vindo do infinito, e mais precisamente, no planetinha azul, do mar.

As conchas trazem consigo o infinito, porque carregam sua origem onde quer que sejam levadas.

Elas não nos deixam esquecer nossa infinitude enquanto vida continuada, enquanto areia na praia e gota no oceano, enquanto pó de estrelas no universo que tem lá fora e aqui dentro.

Infinitar: ação que as conchas espiraladas realizam quando levadas à orelha e escutadas com atenção.

Tamanduateí

Tamanduateí, estás vivo por trás de todo esse lixo, esse desprezo, essas interferências na tua natureza.

ESTÁS VIVO POR TRÁS DE TODA ESSA MORTE.

Te queremos limpo, não desistiremos de você.

Aguenta firme, companheiro!

Nós, humanos, vamos passar, você vai permanecer!

Tamanduateí

TÃO LINDO

TÃO FORTE

TÃO MALTRATADO

Os marginais da sociedade nunca desistiram de você.

As garças e as capivaras nunca desistiram de você.

As plantas consideradas pragas, as ervas daninhas, nunca desistiram de você.

E você nunca desistiu de ninguém, nem de nós, que tanto mal te fizemos.

Ingovernáveis

Eu passo naquelas avenidas

Que estão próximas aos rios

Vejo canais de cimento

Vez ou outra

Parece que esqueceram uma pedra.

Que esperança que dá

Daquele rio correr limpo de novo

Fazer seu curso

Lambendo as pedras com carinho.

É novembro

Caem chuvas abundantes

Quero comemorar a chuva

Nossa querida chuva

Mas moro em São Paulo

Aqui, ora a chuva é uma bênção

Ora uma maldição

Que derruba morros

Que alaga bairros

Que deixa pessoas ilhadas, exaustas, famintas.

A chuva, o rio, a água

Não podemos contê-los

Temos que parar de tentar

Controlá-los

É mais fácil e eficaz

Procurar conter

A ganância e o capitalismo.

A água, o rio, a chuva

São ingovernáveis.

A dignidade da água

A água escorre na sarjeta

Suja, turva

Noite

Luzes amarelas nos postes

A água reflete a luz

Seu movimento, suas pequenas ondas

Cumprem sua natureza

E, lindamente, refletem a luz amarelada

Apesar do seu maltrato

Sua podridão e tudo de mal

Que ela pode estar levando

Ela lindamente reflete a luz.


A paisagem, uma avenida triste

Com prédios gigantes e novos

Um pronto

E um em construção.

Não fosse a água, tão digna

E a luz do poste

Seria só melancolia.


A água ancestral

A mesma do começo do mundo

Me trouxe um rio de lirismo

E um sopro de alegria

Mesmo que suja e contaminada.

Gotas de amor

Sem um amor romântico

Sem um outro ter seu centro em mim

Sem eu ter meu centro num outro

Eu tomo gotas de amor que caem por aí

De pessoas desavisadas que me sorriem na rua

de crianças cheias de vontade

de ventos

de galhos de árvores que me fazem um carinho acidental

do chuveiro quentinho.

Na casa dos meus pais

o amor é servido em baldes

Entre os amigos o amor cai em gotas de garoa. Sereno amor.

No fim do dia

o amor está no meu odor

na gotas de suor

o amor que dedico a mim

brota do meu trabalho.

Nosso acccordo

Eu não perdoo e guardo rancor de quem,

Estando em posição de lutar,

E tendo condições para isso,

Recua e não age

Não se responsabilizando

pelo mundo em que nasceu.


O quê nos deixou tão insensíveis?

Quando extamente ficamos assim?


Deve ter sido quando firmamos

um acordo irrevogável com 

o comodismo,

o conformismo 

o confortismo.


QUAL SERÁ A DANÇA DO FIM DO MUNDO?

O SAMBA DOS HELICÓPTEROS?

O XOTE DO CHICOTE?

O FUNK DAS METRALHADORAS?

Todos tocando ao mesmo tempo

no volume máximo!

Damnant speculatores

Malditos sejam os especuladores imobiliários

Porque eles criam os infernos das nossas cidades!

Malditos sejam aqueles que transformam a terra em mercadoria

Porque essa mercadoria também há de comê-los!

Malditos sejam os que negam teto ao desabrigado

Porque, para eles, não haverá abrigo em nenhum coração!

Malditos sejam os que apagam histórias

Porque suas histórias também serão apagadas!

Malditos sejam os que destróem nossa paisagem

Porque, da nossa paisagem, eles serão destruídos!

Malditos sejam os que arrombam a terra com máquinas

Porque, quando cavam, estão se aproximando do inferno!

Amaldiçoados sejam todos aqueles que fazem do trabalho humano e da terra seu lucro

Porque o lucro irá corroê-los e deixá-los sem alma.

impoTEMPOtência

O tempo é um milagre

Só nele eu tenho fé

O tempo passa e isso é certo

O resto é ilusão

Tentativas de eternizar

o efêmero que é insuportável.

O certo é o insuportável

Só nele eu tenho fé

Ele gera o movimento

Que dá algum sentido ao tempo

Para que ele não corra sozinho

Escancarando sem resistência

Quão sem sentido

É a existência.