Revoluciona-Rio

Eu só rio

Se tu, rio,

Não for cenário

Do inferno fundiário

Que te faz acessório

de negócio conspiratório.


É mesmo muito contraditório

Jogar esgoto depredatório

E vir com discurso doutrinário:

“É progresso!” Ai, que delírio!

Só se progresso for martírio.


O nefasto império fundiário

Que faz dinheiro com o território

É perverso e hilário

Faz do nosso imaginário

Um desterro imobiliário

Sobe prédio inglório

Pra encher de funcionário

Que só ganha 2 salário.


Ó maldito latinfundiário

Da cidade, do campo e do cemitério

Você não passa de um mercenário

Um missionário

A serviço de um plano monetário

Que te torne milionário.


Mas você anda solitário

Seu ideal é precário

Te denunciar é necessário!


O rio é um santuário

Ele me torna revolucionário

Me dá até um calafrio

Pensar no mundo sem rio.

O amor e a cidade


Onde tantos transitam

Transitam muitos interesses

Olhar, ver, perceber

Captar o momento, o rosto e as feições de quem passa


Então passa


Infinitamente maior do que o tempo do encontro

(cruzamento, não como o dos animais)

É o tempo eterno do nunca mais


Por isso o treino do desinteresse

O encontro, o momento de iluminação do belo transeúnte

 é esmagado por todos os outros que passam,

pelo tempo posterior que o devora.


Mas o treino não funciona sempre

A vida procura vida

Os olhos procuram olhos

E sorrisos explodem sorrisos


Na metrópole está tudo o que se busca

Mas quase nada está ao alcance das mãos.

A CIDADE DAS CRIANÇAS SELVAGENS

QUANDO AS CRIANÇAS SELVAGENS TOMAREM A CIDADE, 

A PRIMEIRA AÇÃO PARA A VIDA VOLTAR A CORRER LIVRE 

SERÁ A DE DEIXAR TUDO GRÁTIS. 

DINHEIRO NÃO SERVIRÁ PARA ABSOLUTAMENTE NADA 

NA CIDADE DAS CRIANÇAS SELVAGENS.

A SEGUNDA AÇÃO SERÁ LIBERTAR PRESOS E ANIMAIS.

TODOS OS SERES VIVOS TERÃO IGUAL VALOR.

SÓ SERÁ CONVOCADO PARA O TRABALHO 

AQUELE QUE GOSTAR DO QUE FAZ. 

AQUELES QUE SE DIVERTIREM TRABALHANDO 

(E TRABALHAR NÃO TERÁ MAIS ESSE NOME, QUE É QUASE O MESMO QUE CASTIGO) 

O DEVERÃO FAZER SOMENTE QUANDO ESTIVEREM A FIM.

TUDO PODERÁ E DEVERÁ SER TOCADO.

TUDO FICARÁ ABERTO 24H.

NÃO HAVERÁ HORA CERTA PARA NADA. 

TODA HORA SERÁ HORA DE QUALQUER COISA.

NÃO EXISTIRÃO CONVENÇÕES. 

CRIAREMS REGRAS VOLÁTEIS 

QUE COMBINAREMOS ANTES DE CADA BRINCADEIRA. 

ACABADA A BRINCADEIRA 

AS REGRAS PERDERÃO A VALIDADE.

TODAS AS BRIGAS DEVERÃO SER RESOLVIDAS SEM DEMORA E, DE PREFERÊNCIA, SEM AGRESSÕES.

A MALDADE NÃO SERÁ ENSINADA NEM ESTIMULADA, 

A GENEROSIDADE SIM.

PEDIR AJUDA NÃO SERÁ HUMILHANTE, 

AJUDAR NÃO SERÁ UM FAVOR.

NENHUM MEIO DE TRANSPORTE PODERÁ TER VELOCIDADE TAL QUE NÃO CONSIGA PARAR PARA UM CÃO ATRAVESSANDO A RUA OU UMA PESSOA ATRÁS DE UMA BOLA.

NENHUMA PESSOA TERÁ O PODER DE DAR ORDENS A OUTRA PESSOA.

Para Dona Emma, Dona Adélia e Dona Ana Dulce

Existem tristezas e lágrimas

Que são evitáveis

De certo modo até

Escolhidas.

Outras são abismos:

Saber que o tempo é infinito,

Mas, para os humanos,

Ele acaba…

Para mim e para os meus

(Que é tudo o que eu reconheço

De belo e cheio de sentido e vida)

O fato é que vai acabar.

Eu penso nas gerações

O neto   a neta

O pai     a mãe

O avô    a avó

É tanto tanto tanto amor

E o tempo implacavável

Vai separar

Vai criar o abismo.

E só de pensar… só de saber…

Já dói.

A neta e a avó

Tem pouco tempo

Para trocarem tudo o que podem

Para se conhecerem

Para conviverem.

A natureza é tão dura

e tão bela.

A guerreira que não se cansa

Sua cria ela defende com justiça

A sabedoria que traz

Não é ostentada,

O preço da luta

Não é calculável.

A urgência começa a urgir

O tempo se esgota

O mundo ainda precisa dela

E ela ainda quer lutar.

Dentro dela a vida reluz

Como brilho de diamante.

A proximidade da morte

A faz amar ainda mais a vida

E olhar para tudo com carinho

E gratidão, com cuidado

Com saudade.

Eu olho para ela,

Eu tenho pouco tempo

Para aprender tudo

Para conhecê-la

Para dizer a ela que a amo

E que vou continuar sua obra!

Besta romântica

Tenho andado meio besta

Quase apaixonada.

Vejo pessoas no metrô

Aquele moço combina tanto

Com aquela menina.

Estão ali, tão próximos e tão distantes

Um passo para trás

Um pisão no pé do outro

E um milagre.

Tanto amor em potência

Casais, amigos, parceiros latentes.

Ando meio besta

Molinho molinho

Está o meu coração.

Machuca ele não…

2, 4 ,8, 12…

EU TENHO DOIS ROSTOS

TENHO QUATRO, OITO, DOZE ROSTOS

A MAIOR PARTE DO TEMPO

EU NÃO SEI QUE CARA TENHO

.

QUANDO INVENTO ME SAI DO AVESSO

SE RELAXO, SAI ESCRACHO

NÃO PLANEJO, NÃO CONTROLO

QUAL DOS MEUS ROSTOS

ESTÁ A POSTOS

.

VOLTO TARDE DOS DEVANEIOS

OS OLHOS ESBUGALHADOS

A BOCA TENSA

QUE CARA TENHO

QUANDO OLHO PRA DENTRO?

Ode ao feijão

Aquilo que se dispõe a dar-se por inteiro

Que sua natureza e função

são a base

a terra

a força da força

–       o toque do surdo

–       o ronco do motor

–       o abraço bem apertado

Merece ser cantado!

Vai da dureza extrema

A um cremoso caldo

Empanturra de sabor

Acompanha o melhor acompanhamento…

O arroz.

O feijão merece ser tema de carnaval todo ano.

Ele é como eu, como nós

Brasileiro, caipira, italiano,

mexicano, japonês, colombiano,

nordestino, mineiro, carioca, paulista…

Eu agora penso nele

Com meu coração e meu estômago

Meus braços e pernas

Anseiam por feijão.

Minhas mãos escrevem sobre ti, meu querido.

Minha mandíbula te deseja.