Silênciofobia

O silêncio foi considerado oficialmente extinto.

Não é encontrado em lugar nenhum da Terra.

Mesmo os que dizem que ele nunca de fato existiu agora consideram que ele não existe mesmo, ou pelo menos, desde o surgimento da energia elétrica.

Há quem lute para preservá-lo, mas são poucos. Apesar de muitos gostarem do silêncio, já o vêem como uma quimera, um sonho inalcansável.

Há aqueles que não o suportam e o perseguem cada dia mais. Um fenômeno crescente nos dias atuais – o ódio ao silêncio.

Pelo metrô de SP…

*Certo dia eu estava descendo as escadas do metrô e duas moças, amigas entre si, se alinharam comigo, uma de cada lado e entraram no meu ritmo. Elas não pararam de conversar, mesmo eu estando ali, entre elas. Isso me fez sentir automaticamente a minha inexitstência, a minha insignificância. Mas também me deu uma posição inteiramente nova num diálogo, uma narradora observadora muito de perto, estar no entre, um ângulo inusitado… descemos metade da escada assim. Só não foi bizarro porque foi surreal. Alinhamentos. E desalinhamentos.

*Estava dentro do trem e queria rir. Lembrei de uma amiga que entrou correndo pela porta e sua mochila ficou presa na porta e ela é muito engraçada, numa situação dessas, então…

Só sei que não consegui mais controlar minha cara de nada e comecei a rir. Eu estava sozinha. Parei… tentei parar de rir quando vi as pessoas ao meu redor me olhando. Não queria mais rir, mas ri mais ainda. Incapaz de me conter, comecei a esconder a minha cara. Achei ridículo, perdeu a graça.

Sobre o carinho…

Eu estava no ponto esperando o ônibus. Encostou o Campo Limpo e logo uma mini fila multidão para adentrá-lo. Uma mãe com sua filha encontrou outra mãe com seu filho, e a menina, ao ver seu “amiguinho” ficou muito feliz. Ela disse: “Caio! Caio! Oi!” e o abraçou suave e carinhosamente. O menino não esboçou reação. Ela demonstrou estar feliz com a presença dele. Meio desconcertada com a frieza dele, ela fez mais um gesto suave de abraço (eles deviam ter entre 5 e 7 anos), foi quando o menino soltou: “Você me irrita!” Ela disse: “Não irrito, não!”. A mãe dela puxou-a para entrarem no ônibus dizendo “irrita sim!”. Esta foi a cena que vi hoje. Durou menos de um minuto, talvez dois…

Por que o carinho irrita? Por que demonstrar felicidade pela presença do outro não é comum e pode até ser ruim?

1.    Seria porque o carinho sela um acordo e precisa de reciprocidade?! Mesmo sendo passivo no ato escandaloso de receber carinho, isso representa uma intimidade extravagante. Mesmo não estando em público. Mas, ainda que na intimidade, o carinho é quase um investimento. Você dá e quer receber, logo, você recebe… e tem que dar!! Esse “tem que dar” quando você recebe é que pode causar essa estranheza do recebimento. E o contrário também: você, ciente disso, quando dá carinho pensa que o outro pode se sentir obrigado a retribuir, então, para que ele não tenha que ser obrigado a nada, você já nem dá o seu carinho, para não constrangê-lo.

2.    Seria porque o carinho rompe o maior limite que temos na vida? O limite do nosso corpo, do que podem fazer com ele? Quando nos encontramos numa era de extremos e distanciamento da natureza, temos contato físico por poucos motivos. Violência e sexo são os mais comuns. Artes, esportes e superpopulação também configuram contatos físicos.  O toque voluntário ou involuntário. A vontade do toque. Quem quer tocar e quem é tocado. Quem quer tocar não sente o mesmo de quem é tocado. Quem é tocado, é tocado pelo corpo do outro e pela expectativa que o outro tem. Em quem exatamente o carinho está a tocar? Ele não sabe. Mas quem é tocado sente (ou pode sentir) o incômodo que vem da possibilidade de quem o acaricia estar projetando no seu objeto acarinhado uma outra pessoa.

3.    A pessoa acarinhada pode estar em outro universo quando vem alguém e o toca, fazendo-o retornar à sua materialidade quando sente outro corpo a tocá-lo.

4.    A pessoa rabugenta pode temer o carinho porque este poderia amaciar o seu coração endurecido. E isso poderia viciar. E então iria sofrer por não ter carinho todas as vezes que quisesse.

5.    O carinho pode irritar porque a pessoa que o faz tem um ar espontâneo, o que te faz lembrar que você não é espontâneo e por isso nunca toca as pessoas. Quando alguém te toca você pode se irritar por descobrir por alguns instantes o que está perdendo quando não toca nas pessoas.

6.    Mas, principalmente, o carinho é uma declaração de amor, uma entrega. E ninguém quer se entregar e nem receber entregas, mesmo havendo amor, não pode ser demais. Ame e não dê vexame.

     7. O carinho desperta paixões, emoções. Desperta e demonstra  responsabilidade. Representa cuidado. E cuidar dá trabalho, ser cuidado também.

O que Simone e Sartre diriam da nossa geração?

O que podemos fazer com uma geração que sabe, que entende as forças que agem, as forças da exploração, da alienação, da manipulação, mas não ousa questionar. Antes! Prefere questionar o próprio conceito de ética, ou coerência, prefere aceitar a incoerência como condição da nossa época.

Uma nova ética parece se estabelecer quando não se pode exigir nada do outro, inclusive coerência. Uma liberdade individual extrema que nada tem de libertária, estando muito mais próxima de um liberalismo. É “livre” pois pode tudo. É a tirania do individualismo.

Será que foi isso que a era da informação nos trouxe?

Uma enorme capacidade de aceitar, de saber, entender… e aceitar.

A crença profunda e sincera de que é possível criar algo novo sem fazer nada de profundamente diferente.

É um novo paradigma. Antes o desafio era que todxs tivessem acesso à informação, aos conhecimentos, à escola, à internet. Agora o desafio é a informação se transformar em ações que construam um mundo vivível para todxs, e não em controle, estagnação, manipulação e fetichismo.

É importante observarmos esse sistema que cultua tanto o individualismo e a liberdade individual em detrimento do coletivo, mas que quando se trata de dar poderes a esse indivíduo esse sistema, na verdade, o destitui completamente de toda a sua força.

O que podemos esperar das bilhões de pessoas que neste exato momento conseguem compreender que o mundo como o conhecemos está acabando mas não se sentem capazes de fazer absolutamente nada para mudar isso? Uma geração que, incapaz de ser coerente, decidiu decretar num novo acordo (subjetivo e não conversado mas estranhamente consensuado), de que a coerência não é mais algo tão importante. Em tempos contraditórios, nossos pensamentos embalados por um inconsciente coletivo nos acalmam dizendo que ser “contraditório” não é mais algo negativo. Mas, qual é o problema em ser contraditório? Em dizer uma coisa e fazer outra? Qual é o problema se uma pessoa não tiver “palavra”? Que que tem de errado a pessoa combinar e não cumprir? Dizer que vai e não ir? Bom… são reflexões que não têm uma resposta pronta, podem, de fato, representar uma liberdade em relação ao excesso de compromissos que temos que assumir ao longo de nossa vida burocratizada. O ponto é que, abrindo mão desses acordos não declarados de que ter “palavra” é importante, tornamo-nos menos confiáveis para xs outrxs, e com isso construímos menos um mundo colaborativo e vivível para todxs pois não podemos contar uns com xs outrxs para sobrevivermos, tornamo-nos ainda mais dependentes do sistema de exploração em que estamos inseridxs.

Eu queria que Simone e Sartre estivessem aqui, o que diriam dessa geração que ama o existencialismo mas o sepulta todos os dias em quase todas as suas ações? Uma enorme, generalizada e grotesca desresponsabilização por nossas ações e comportamentos é o que vivemos hoje.

Se um dia entendemos que somos responsáveis pelo que somos e, por consequência, pelo que o mundo é, e se essa percepção foi potencialmente revolucionária quando veio à tona (pois nos devolvia nosso poder de ação), hoje essa consciência não respresenta nenhuma ameaça ao status quo. De certa forma foi tirado (ou trocado) de cada um de nós, habitantes da Terra, o poder de acreditar que nossas ações, ou o conjunto delas, é que está acabando com o mundo, e que, por consequência, poderá salvá-lo.

Tendo a acreditar que esse poder foi trocado pelos confortos do capitalismo e do individualismo. Em cada produto, em cada comportamento e em cada atitude (ou não-atitude) vem a certeza de uma aprovação, de uma cumplicidade, vem a destituição da responsabilidade individual e, com ela, a destituição do nosso poder de agir. É uma troca forçada e desleal, mas é uma troca. Temos nossa parte nisso.

Essa desresponsabilização é notável em diversos aspectos da vida, desde o descaso com o meio ambiente, até os hábitos alimentares, de socialização, de consumo e o trato com x outrx. Mas me parece que a principal desresponsabilização está em ter informação e não agir, em saber… e aceitar.

2, 4 ,8, 12…

EU TENHO DOIS ROSTOS

TENHO QUATRO, OITO, DOZE ROSTOS

A MAIOR PARTE DO TEMPO

EU NÃO SEI QUE CARA TENHO

.

QUANDO INVENTO ME SAI DO AVESSO

SE RELAXO, SAI ESCRACHO

NÃO PLANEJO, NÃO CONTROLO

QUAL DOS MEUS ROSTOS

ESTÁ A POSTOS

.

VOLTO TARDE DOS DEVANEIOS

OS OLHOS ESBUGALHADOS

A BOCA TENSA

QUE CARA TENHO

QUANDO OLHO PRA DENTRO?