A economia da desavença

Era uma vez uma sociedade na qual as pessoas eram influenciadas diretamente por pequenos aparelhos com uma tela luminosa. Ali, através daquela tela, geração após geração, as pessoas aprendiam o seu comportamento, seus gostos, suas atitudes e valores. Nessa sociedade, a esmagadora maioria das pessoas, enquanto era mantida na mais perversa pobreza, trabalhava para enriquecer algumas poucas pessoas.

Mas como esses aparelhos conseguiam controlar, ensinar, manipular e convencer tanta gente a se escravizar (aparentemente) voluntariamente por um sistema que as oprime? Uma das respostas é: dando às pessoas coisas que elas realmente precisam, como a possibilidade de se comunicarem com pessoas que estão distantes. A partir dessa necessidade tecnológica (que já foi resolvida por diversos meios como o telefone e a internet), empresas começaram a organizar e analisar os dados coletados por esses aparelhos de tela luminosa, e com isso, foram e são feitos estudos massivos do comportamento das pessoas.

O fato é que essa sociedade dependia desses aparelhos (ou pelo menos achava que dependia) para se comunicar, pois as pessoas mal falavam umas com as outras presencialmente, e passavam a maior parte do seu tempo usando esse aparelho.

Quem analisava toda a informação gerada pelos aparelhos sobre as pessoas tinha muito controle sobre essa sociedade. Dominava o consumo, o desejo, o comportamento socialmente aceito, elegia governantes, linchava indivíduos e crenças, julgava a seu bel prazer.

Quem analisava toda a informação sobre as pessoas (que vinha de seus aparelhos de comunicação) sabia mais sobre as pessoas do que elas mesmas. Tornou-se um oráculo, um deus supremo.

Tinha o agravante que as pessoas nessa sociedade eram fascinadas e se viciavam no uso desses aparelhos de tela luminosa desde recém nascidas, de modo que mal podiam se defender dessa sina.

Quem analisava as informações sobre as pessoas organizava dados que coletava e traçava perfis completos de grupos enormes de pessoas dessa sociedade. Para cada perfil/pessoa, era criado todo um universo virtual do que ela deveria consumir, ler, pensar, dizer, fazer. A resposta social à influência da informação enviada minuciosa e precisamente para cada perfil/pessoa era notável e confirmadora da eficácia dessa análise de dados.

O domínio daqueles que analisavam as informações sobre as pessoas chegou ao ponto deles atrasarem ou adiatarem o tempo dessa sociedade, percebendo que podiam gerar guerras, impedir ou influenciar atividades, podiam tudo.

Foi um dia como outro qualquer quando uma grande empresa de comunicação decidiu atrasar o relógio de alguns dos seus aparelhos para analisar a reação das pessoas a essa interferência. Colocar as pessoas em diferentes tempos (horários) causou grandes desencontros, muitos atrasos, pessoas chateadas com outras por não responderem às suas mensagens quando estavam precisando. Essa interferência no tempo (horário) dos aparelhos gerou até mortes.

Os dados mostraram que as discussões geradas por tais desencontros criaram um aumento no fluxo de informação, o que gerou mais coleta de dados e mais fluxo financeiro. Rompidas, as pessoas passaram a consumir mais, a usar mais aplicativos de encontros, passaram a ficar mais horas inativas, apenas em frente aos seus aparelhos, gerando mais e mais dados.

Depois de um tempo, as grandes empresas de comunicação passaram a não mais mexer no relógio dos aparelhos de maneira orquestrada, pois já despertavam desconfiança na sociedade a respeito de tal prática. Começaram, então, a atrasar ou adiantar o envio e chegada das mensagens, alterando seus horários de envio e recebimento. Isso mexeu diretamente com a intimidade das pessoas, pois o tempo de resposta em uma conversa diz muito sobre o ritmo que a conversa terá, e sobre a equação entre ação e espectativa que as pessoas tinham umas com as outras.

Com isso, de tempos em tempos, temporadas de grandes desavenças assolavam essa sociedade, alguns culpavam os astros, outros culpavam seus semelhantes, por tais e tais comportamentos, enquanto isso alguns poucos lucravam com a desavença diariamente, noticiando desavenças dos famosos ou dos mais vulneráveis. Entre os poucos, pouquíssimos lucravam exponencialmente mais cada vez que esse “gap” nas mensagens entrava em ação. Era um “agito” social, um incremento lucrativo na realidade.

Era preciso, porém, ter cuidado com a “economia das desavenças” pois, quando ela começou a gerar dados de mortes excessivas em decorrência de sua prática, o mercado consumidor e o uso dos aparelhos (e geração de dados) decaiu.

Então os poucos e os pouquíssimos começaram a calcular o grau de destruição social que a prática de mexer com o tempo das mensagens poderia causar. E preocuparam-se, por algum tempo, em dosar esse incremento lucrativo na realidade.

Tudo ia bem com a economia da desavenças, até acontecer o inesperado: as pessoas se acostumaram com a possibilidade de que as relações entre elas podem ser qualquer coisa – o compromisso, a simples ideia de combinar ou dar sua palavra para qualquer ação era absolutamente vazia. Ninguém contava com ninguém, nada de acordos. Regras sim, isso tinha bastante, e todxs procuravam seguir as normas. Mas acordos… consensos, combinados, planos… passaram a não mais existir. No começo as pessoas se magoavam, muitas rupturas aconteceram, grupos e comunidades inteiras ruíram. Depois houve uma acomodação social. Um novo acordo. Desde quando alguém esperava algo de outro alguém? Não espere nada de ninguém, não conte com ninguém, esse era o consenso. O outro não existe – o individualismo em seu estado puro.

Com isso, depois dessa surpreendente acomodação social, aqueles poucos milionários deixaram de lucrar exponencialmente mais com o “gap” da desavença, mas graças a deus continuaram garantindo sua posição de extrema desigualdade em relação ao povo que os mantém.

Tudo ficou igual, só um pouco pior. Mas poucos perceberam…

Tamanduateí

Tamanduateí, estás vivo por trás de todo esse lixo, esse desprezo, essas interferências na tua natureza.

ESTÁS VIVO POR TRÁS DE TODA ESSA MORTE.

Te queremos limpo, não desistiremos de você.

Aguenta firme, companheiro!

Nós, humanos, vamos passar, você vai permanecer!

Tamanduateí

TÃO LINDO

TÃO FORTE

TÃO JUDIADO

Os marginais da sociedade nunca desistiram de você.

As garças e as capivaras nunca desistiram de você.

As plantas consideradas pragas, as ervas daninhas, nunca desistiram de você.

E você nunca desistiu de ninguém, nem de nós, que tanto mal te fizemos.

Silênciofobia

O silêncio foi considerado oficialmente extinto.

Não é encontrado em lugar nenhum da Terra.

Mesmo os que dizem que ele nunca de fato existiu agora consideram que ele não existe mesmo, ou pelo menos, desde o surgimento da energia elétrica.

Há quem lute para preservá-lo, mas são poucos. Apesar de muitos gostarem do silêncio, já o vêem como uma quimera, um sonho inalcansável.

Há aqueles que não o suportam e o perseguem cada dia mais. Um fenômeno crescente nos dias atuais – o ódio ao silêncio.

Nzinga sussurando

Todas queremos saber nosso destino. Queremos que seres divinos nos digam que somos mesmo como todas as outras, só mais uma…

O que é destino quando estamos e somos uma multidão?

Eu sou divinamente igual a todas as outras pessoas, as vejo pelas ruas, o que nos une é o nosso cansaço. Nele nos encontramos. Igualmente exploradas, ainda que de formas e em níveis diferentes. São iguais os corpos, são corpos que se cansam. O brilho oleoso na pele, o suor que não seca, o medo, a vontade de dançar enterrada no corpo – que precisa conseguir seguir vivendo, a vida sonhada (ainda que o sonho seja abstrato, disforme e incompreensível).

De repente, a conversa puxada no ponto de ônibus louva à chuva e agradece à vida, é troca de esperanças, fôlego novo que vem do ar expirado por outra pessoa. Apesar de tudo, temos sim umas às outras. Só o limite nos mostra isso, depois, não tem volta, a esperança se instala, é Nzinga sussurrando: “o que se pode fazer para além de aguentar?”

Ingovernáveis

Eu passo naquelas avenidas

Que estão próximas aos rios

Vejo canais de cimento

Vez ou outra

Parece que esqueceram uma pedra.

Que esperança que dá

Daquele rio correr limpo de novo

Fazer seu curso

Lambendo as pedras com carinho.

É novembro

Caem chuvas abundantes

Quero comemorar a chuva

Nossa querida chuva

Mas moro em São Paulo

Aqui, ora a chuva é uma bênção

Ora uma maldição

Que derruba morros

Que alaga bairros

Que deixa pessoas ilhadas, exaustas, famintas.

A chuva, o rio, a água

Não podemos contê-los

Temos que parar de tentar

Controlá-los

É mais fácil e eficaz

Procurar conter

A ganância e o capitalismo.

A água, o rio, a chuva

São ingovernáveis.