Gotas de amor

Sem um amor romântico

Sem um outro ter seu centro em mim

Sem eu ter meu centro num outro

Eu tomo gotas de amor que caem por aí

De pessoas desavisadas que me sorriem na rua

de crianças cheias de vontade

de ventos

de galhos de árvores que me fazem um carinho acidental

do chuveiro quentinho.

Na casa dos meus pais

o amor é servido em baldes

Entre os amigos o amor cai em gotas de garoa. Sereno amor.

No fim do dia

o amor está no meu odor

na gotas de suor

o amor que dedico a mim

brota do meu trabalho.

O dia em que beijei uma rosa

Já faz tempo que aconteceu. Eu tinha uma rosa amarela. Eu não a tinha, ela era minha, mas logicamente não me pertencia. Eu a comprei para tomar um banho com ela, receita do caboclo. Mas quando cheguei em casa, fui incapaz de colocá-la na água fervente. Ela era exuberante, tão viva e plena, muito amarela e suave, não poderia ser morta. Decidi esperar ela ir morrendo para fazer o banho, e ir curtindo a cozinha com aquela hóspede tão singela e exuberante. Ela ficou na mesa por um bom tempo e não perdia sua beleza com o tempo. Quando fazia minhas refeições ela me fazia companhia e eu a observava demoradamente e muito admirada. Acho que nos apaixonamos. Além da sua beleza irracional, ela tinha um cheiro suave, doce e delicado. E, sem exageros (porque todos sabem que, em se tratando de uma rosa, nada é exagero), ela era deliciosamente aveludada, acariciá-la levemente era extremamente prazeroso. Um dia, com os dedos perdidos entre as pétalas, senti necessidade de mais sensibilidade. Os dedos têm as pontas com a pele grossa, não são a parte mais sensível do corpo, era preciso tocar com os lábios, que têm a pele mais fina. Toquei, me perdi entre as pétalas. Foi assim que eu e a rosa nos beijamos.